O PAC dos índios que a imprensa não vê
O artigo abaixo foi publicado no portal do Observatório da Imprensa, em 30/setembro, no endereço http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=505JDB006
MÍDIA & QUESTÃO INDÍGENA
O PAC dos índios que a imprensa não vê
Por Ricardo Tripoli e Noel Villas Bôas em 30/9/2008
O governo federal conseguiu ganhar pontos junto à opinião pública ao apoiar a retirada de não-índios da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima. Com isso, está conseguindo também esconder debaixo do tapete o retrocesso de seu PAC (Programa de Ação de Crescimento) para a política indigenista.
Não tem havido na imprensa praticamente espaço algum para as críticas que têm sido feitas por diversas entidades indigenistas desde meados de 2007, quando foram anunciadas as ações do “PAC índio”. O assunto só veio temporariamente à tona por meio das declarações do relator James Anaya, das Nações Unidas, que em sua visita ao Brasil, em agosto, ressaltou que esse programa governamental não leva em conta as particularidades dos povos indígenas e prevê ações de cunho paternalista em relação a eles.
As críticas do observador da ONU são compatíveis com dois pontos essenciais: 1) o índio só sobrevive em sua própria cultura; e 2) a sociedade brasileira não apresenta condições de integrá-lo. Essas são as duas premissas que nortearam a política dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas, que veio a se tornar a política indigenista oficial do governo.
Integracionismo não vingou
Não há notícia de grupos indígenas integrados à nossa sociedade. Todas as vezes que se tentou fazer isso, eles foram sub-integrados, ou melhor, marginalizados. A proposta dos Villas Bôas foi o contraponto dessa concepção integracionista. Os parques e reservas indígenas sempre tiveram como função servir de “refúgio” às populações indígenas pressionadas pelas frentes de penetração, que trazem a desagregação tribal e a disputa pela terra.
Apesar do longo histórico de proteção ao índio pelo marechal Rondon e com a implantação da política dos Villas Bôas – consolidada com a criação do Parque Indígena do Xingu, em 1961 –, surgiu outro modelo de política indigenista a partir de 1970. Desenvolvido com estreita vinculação às estratégias do governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), ele propunha a rápida integração do índio não só à sociedade, mas também à economia brasileira. O índio começava a ser visto como um entrave ao desenvolvimento e à segurança nacional.
Foi nesse período que a Funai (Fundação Nacional do Índio) passou a orientar suas ações em consonância com o Plano de Integração Nacional, o PIN. Com isso, as diretrizes da Funai passaram a ser duas: integrar o índio o mais rápido possível à economia de mercado e impedi-lo de se tornar um obstáculo à ocupação da Amazônia. Era o período do “milagre econômico”.
A política do governo do general Ernesto Geisel (1974-1979) em relação ao índio não foi diferente. Ela visava a integrar e emancipar rapidamente o índio, promovendo, inclusive, a implantação de projetos de desenvolvimento econômico em suas terras.
Essa orientação integracionista não vingou, pelo menos oficialmente. As grandes demarcações de reservas indígenas consagraram a política dos Villas Bôas e já chegam a 12,49% do território nacional.
Atividades mineradoras
As siglas mudaram: o PIN (Plano de Integração Nacional) do governo Médici já não existe mais, no entanto surgiu o PAC, divulgado pelo atual presidente da República como “mola propulsora do milagre do crescimento brasileiro até o ano de 2010″. E, com esse novo “milagre”, o índio volta a ser visto como entrave ao desenvolvimento nacional.
É verdade que o governo federal, hoje, não prega a política integracionista. Ela seria desastrosa para sua imagem pública. Mas sua concepção indigenista praticamente não difere daquela dos anos 70. Publicamente, defende-se o índio. Na prática, desenvolvem-se planos nos quais a perda dos padrões culturais indígenas e a conseqüente desagregação de sua organização social atendem melhor a essa segunda versão do “milagre”.
Dois aspectos que freqüentemente estão na mídia servem bem para ilustrar a orientação do governo em relação à questão indígena: mineração e hidrelétricas.
Oito meses após a instalação da Comissão Especial para analisar o projeto de lei sobre a mineração em terras indígenas, o deputado Eduardo Valverde (PT/RO), curiosamente presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Indígenas, apresentou um substitutivo com base na proposta do Executivo: a proposta prevê autorização do Legislativo para atividades mineradoras em terras indígenas mesmo no caso de recomendação contrária de laudos técnicos.
História se repete
Infelizmente, o Plano de Aceleração do Crescimento prefere ignorar os tristes exemplos parecidos ocorridos nas décadas de 1970 e 1980. A usina hidrelétrica de Balbina, ao norte de Manaus (AM), por exemplo, que resultou em um desnível de água pífio em relação à enorme área inundada e mal conseguiu suprir as necessidades energéticas da região, desalojou a reserva indígena Waimiri-Atroari e impôs grandes impactos para a fauna e a flora em torno do rio Uatumã.
Esse filme se repete com o projeto da usina de Belo Monte, no rio Xingu, e com critérios sócio-ambientais decisivos que só se referem à criação de oportunidades econômicas no entorno da barragem.
Em tempos de PAC, o recado de Orlando Villas Bôas para o governo federal seria algo como aquilo que ele já dizia na década de 1970: “Não se mede a grandeza de um país unicamente pelo nível de renda per capita, nem pelo PNB. Mas, sobretudo, pela capacidade de preservar suas raízes, de conter a variedade dentro da unidade, de atender com justiça aos diferentes grupos que o constituem.”
Integrar o índio é destruí-lo. Cada vez que pretendemos fazê-lo, extingue-se a tribo, a cultura, a língua, o mundo mítico, a organização social e tribal e, por conseqüência, a justificativa da manutenção de suas terras. Era isso o que pretendia a orientação integracionista de Médici e Geisel, mas que só o governo do PAC tem conseguido fazer com assustadora eficácia.
Para um governo cuja origem política remonta ao ideário socialista, vale lembrar a famosa frase de Karl Marx, em seu livro O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, segundo a qual os fatos se repetem na História, sendo na primeira vez como tragédia e, na segunda, como farsa. Infelizmente, no que concerne à política indigenista e a outras áreas de atuação, esse paradoxo não tem chegado à opinião pública.
Informa GRUMIN/REDE DE COMUNICAÇÃO INDÍGENA
on 1 de Outubro de 2008 @ 10:32
Queridos irmãos de luta, Ricardo Tripoli e Noel Villas Bôas:
parabéns pelo artigo tão esclarecedor acerca da exclusão que há mais de 500 anos sofrem os nossos parentes indígenas. Recentemente estive participando de uma mesa-redonda sobre Literatura Indígena, na XII Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém-Pará. Confesso que fiquei maravilhada com o vai e vem constante de pessoas curiosas em torno do universo do livro. Da mesa participaram o Daniel Munduruku, o Yaguarê Yamã e eu - Graça Graúna - como mediadora. É certo que fomos bem acolhidos pela organização do evento; tivemos em um hotel muito chic, tivemos transporte. No Hotel, tivemos contato maravilhoso, ainda que relâmpago, com outros escritores: Ariano Suassuna, Marina Colassanti, Afonso Romano de Santana, Rubem Alves….Até aí, tudo bem….mas nos cinco dias da Feira de Livros quase nada foi mencionado na mídia a nosso respeito. Pra não dizer que não falaram de flores, apenas copiaram a programação geral do evento e com muito esforço, com uma lupa, seria possível ver o tema da nossa mesa-redonda que tratou da oralidade e da escrita no universo da cultura indígena. Os nossos nomes sequer aparecerem. O Yaguarê, o Daniel e eu entendemos, logicamente, o recado; fomos convidados sim, fomos bem tratados sim, mas não tivemos voz o suficiente para marcar a nossa presença no planeta do livro pan-amazônico. A platéia de professores e estudantes que nos prestigiou foi a nossa força também naquele dia em que os jornais estampavam mais as “socialaites” e por que haveriam de estampar a imagens de três escritores indígenas? Apesar de tudo, deixamos nossos recados. Tivemos um encontro com os pesquisadores mirins no Museu Goeldi; visitamos outros museus, como brasileiros também que somos zelosos da nossa história. Ainda deu tempo de conhecer uma bela família Munduruku que nos recebeu a todos com grande alegria. Caminhamos em Belém….passeamos peloVer o peso, admiramos nossos irmãozinhos urubus aos montes, lá nas docas; sentimos o cheirnho gostoso do Pará e o levamos impregnado em nossa roupa, em nossa pele, no nosso espírito. Ora…também nos reconhecemos em meio a tantos irmãos e irmãs excluídos(as) e nos damos conta que somos mais que 300, somos milhares ainda a acreditar na força das águas dos igarapés. Somos fortes ainda; caminhamos fortes, mas isso os jornais não contam. Depois eu volto.
Paz em Nhande Rú,
Graça Graúna
on 1 de Outubro de 2008 @ 12:15
Amadas Eliane e Graça Grúna:
Estive em data recente no lançamento do Relatório da Frente Parlamentar de APOIO à Mineração na Assembléa Legislativa de São Paulo.
Estou com um exemplar do Relatório e entendo que o Movimento Indígena precisa se posicionar sobre as absurdas propostas em curso, deste PAC que nada mais é do que o ideário da “Supremacia da Raça Branca”, projeto Etnocêntrico e Eurocêntrico de devassamento territorial.
ANNA PATA, ANNA YAN (NOSSA TERRA, NOSSA MÃE)
Ano 515 da Resistência Indígena Continental !!!
Abraços de Luz!
Miryám Hess.