QUERIA FALAR DE FLORES , MAS NÃO DEIXAM!
Texto:Eliane Lima dos Santos ( escritora Eliane Potiguara)
Há uns 15 anos atrás atrás, conversei com uma mulher pajé que me informou ao pé do ouvido, não ser reconhecida como tal na aldeia. Explicou que praticava os ensinamentos de seus avós, sigilosamente. Disse-me que devido à colonização religiosa, os costumes de seu povo foram considerados demoníacos, tendo adesão de muitos membros da comunidade. E essa concepção discriminatória perdurou por muitos séculos, como sabemos.

Os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta chegaram com tuberculose no Brasil. O vírus foi propagado de forma massiva. A escarlatina matou milhares de indígenas. As mulheres foram obrigadas a vestirem roupões brancos contra a chamada maledicência feminina. As cartas dos colonizadores diziam que os indígenas eram selvagens e praticavam feitiçarias. Escrevi uma cartilha em forma de livro americano, em 1989, chamado A TERRA É A MÃE DO ÍNDIO, onde conto tantas e tantas discriminações contra indígenas.E tenho passado a vida falando a mesma coisa.
Passado alguns anos em minhas peregrinações, observei que eram poucas as mulheres pajés em relação ao nº de homens que exerciam essa função. Mas, observando melhor e conversando bem intimamente com as mulheres, algumas me relataram que eram pajés e não eram reconhecidas pelo lado masculino, mas que elas faziam rezas, curas, orações para prosperidade, assim como feitiços contra o mal que faziam a seu povo, ou a um membro da comunidade.
Retomando às minhas origens, fui no fundo do baú e me lembrei que aos 6 anos fui curada de dois tumores, um no mamilo e outro na pálpebra direita pelas velhas de minha desaldeada e triste família indígena, minha avó e minha tia-avó, hoje falecidas. Elas rezavam, falavam coisas que eu não entendia e não me lembro. Só me lembro de uma combinação de minhoca amassada, visgo de jaca e teia de aranha que elas faziam e aplicavam nesses tumores sob uma folha verde, por muitas semanas. Eu convivi com aquele cheiro e eu o tenho em minha memória. Se eu pudesse personificar esse cheiro, disponibilizaria, com certeza, até na Internet, na defesa do conhecimento ancestral e da propriedade intelectual.
Verdadeiramente, eu me choquei quando vi uma matéria no dia 14 de março de 2007, no Jornal on line O Progresso, sobre um jovem indígena de 15 anos que matou uma senhora com três facadas, também indígena de 34, por ela estar fazendo feitiçaria. A imprensa e a polícia chamam de feitiçaria. Eu chamaria de cosmovisão, pajelança, mesinha, como falava minha avó paraibana. O Brasil não conhece um milímetro do poder espiritual de uma pajelança. O malefício da imposição cultural dominadora, opressora e tendenciosa colonizou e neocolonizou concepções, cosmovisões indígenas no ÂMAGO da tradicionalidade étnica. Por isso esse infeliz jovem, desconhecedor de sua cultura ancestral cometeu essa barbaridade.
Esse jovem assassino intolerante, NÃO PORQUE QUEIRA, mas porque aprendeu dessa forma, das mentes retrógradas e que discriminam a espiritualidade indígena, mesmo no seio étnico. Ele sem saber, vai paulatinamente multiplicando centenas de intolerâncias morais, éticas pelo Brasil a fora, porque o mal, corre mais que o bem.
Já não chega a violência cometida pelo poder da cruz e da espada?
Alguns meses atrás recebi de um ex-cacique X um pedido de ajuda a uma escola indígena X. Como havia sido convidada para falar HISTORICAMENTE e como ESCRITORA , numa novela X da TV X,em novembro de 2006, aproveitei o espaço para pedir auxílio a essa determinada escola. Eu apostava que ia conseguir essa ajuda. Qual foi a minha surpresa? Cinco Meses depois vi meu nome num site rolar na lama por jovens que mal tiraram as fraldas e mal compreendem que seres humanos merecem respeito e que pessoas mais velhas precisam ser respeitadas.
E é por essa razão que o AUXÍLIO DIVINO não vem.
Porque a tesoura cósmica corta qualquer prosperidade, quando há intolerância e falta da paz e diálogo!
Eu me lembro que quando estive na Conferência sobre a hidrelétrica de Kararaô, no Pará, só havia indígena da Amazônia. E nós lembramos dos indígenas de outras regiões. Isso foi há quase 20 anos atrás. Esses jovens ESPECÍFICOS que discriminam, nem eram nascidos.Mas são seus pais que não contam o lado construtivo,empreendedor, humano e planetário.As mentes dessas pessoas não mudaram. Mostram apenas a questão da competição, do poder. Fulana quer ser política, é o que dizem. E digo que Fulana não quer ser nada, Fulana quer apenas ter o direito de educar, conscientizar, porque Fulana não precisa desses canais.É uma cidadã do mundo.Já é uma senhora e pode encostar-se na tumba eterna porque para ela o materialismo não existe mais.
Fulana construiu sua trajetória com a força da mulher, com o testemunhos dos que sofreram e derramaram suas lágrimas e deram duro no seio do racismo para ser o que é. Só não enxerga quem não quer mesmo. E o pior cego é aquele que não quer ver.Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto.As pessoas intolerantes precisam mergulhar no mar do amor e abrirem seus corações para a amizade e a cooperação.A evolução começa dentro de cada um.
Me lembro também que indígenas brasileiros não participavam do processo de direitos humanos nas Nações Unidas, há muitos anos atrás. Indígenas também eram invisíveis no governo Collor. E nos governos anteriores, muito pior. Indígenas sofreram com a ditadura militar em 1964. Mas algumas insensíveis criaturas apostam nas intrigas.Peço que leiam Fim da Intolerância Interseccional em http://www.elianepotiguara.org.br/textos1.html
É por isso que assassinatos, desrespeitos, intrigas, violações aos direitos humanos, violências interpessoais, ocorrem, como ocorreu o assassinato do jovem indígena de 15 anos à senhora indefesa de 34 anos por INTOLERÂNCIA INTERSECCIONAL, ensinada por terceiros, que não possuem ética. Esse é apenas um caso.
Eliane Lima dos Santos, 56 anos, professora, ( escritora Eliane Potiguara )/Fundadora do GRUMIN/REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS/ www.grumin.org.br
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“A violação aos Direitos Indígenas
divide famílias. O respeito as suas tradições, identidade, cosmovisão, espiritualidade e ancestralidade
perpetuam o AMOR entre povos e entre homem e mulher”. Texto: Eliane Potiguara
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on 19 de Março de 2007 @ 17:34
Eliana, sempre quando eu andava pela aldeia guarani com minhas amigas índias que considero minhas irmãs, nunca me conformei em ver tanta discriminação tanto sacrifício destas guerreiras para criar seus filhos de forma tão desumana tão precariamente enquanto carros oficiais entravam na aldeia COM NOMES MARAVIOLHOSOS COMO FUNAI FUNASA ETC.
Então eu imaginava alguem assim como você que iria aparecer, como nas historias em quadrinho e iria falar e ser ouvida que iria lutar com as armas do coração generoso que só uma índia sabe como é .
Minha amiga minha irmã Deus te enviou no mundo com uma missão e te deu as armas certas para enfrentar esta batalha.
Você ja nasceu vencedora.
Que Deus ilumine os teus caminhos.
Um grande abraço.
Espero poder fazer muito mais que levar meu carinho e amizade cincera as minhas amigas e as crianças que tanto amo, mas acho que tudo tem sua hora.
Estou com você, torcendo por você.
on 20 de Março de 2007 @ 19:13
Amiga Eliane,
Imagine que apenas este primeiro texto me comoveu grandemente. Pergunto a ti que é entendida no assunto, quais os benefícios que a “civilização” equivocadamente pensa, nos trouxe, a não ser extermínio?
Permitimos, consentimos e ainda acontece. Cedemos sem dó a nascente, e já escasseia a fonte de nosso conhecimento próprio…
Perceba a ironia dos fatos que me permito. Um hipócrita que acha louvável a ciência investir recursos imensuráveis a fim de desvendar a origem dos grandes arquitetos das pirâmides ou de tantas outras ruínas existentes, a fim de descobrir seus povos… Enquanto aleatoriamente promovem conscientes neste tempo, o extermínio de nossa única e genuína fonte de identidade, conhecimento e referência íntima.
Cometo inconscientemente um crime contra mim e os meus!
Mas como impedir o “Genocídio” se crimes maiores nos imputam a consciência? Eu por exemplo: sou réu confesso, pois nada faço para impedir.
Por isso, descobrindo-me neste pequeno texto, constato que pior que estes sou. Como bom latino que sou, ainda preservo inconsciente muitos costumes herdado de geração anteriores que acredito serem de ti tão íntimos…
Dormir embalado numa rede,
Beber água da fonte,
Consumir mandioca no café,
Sentar próximo a uma fogueira e ali me aquecer…
Assar batatas
Mirar o firmamento e nele meditar uma oração freqüente…
Amo o sol…
Tenho fascínio pela lua…
Gosto de pescar e consumir peixe na brasa usando folhas de bananeiras…
Busco energia pro corpo quando caminho pés descalço no chão de terra…
Sinto-me atraído e envolvido por um som de batuque…
Mantenho minha casa repleta de plantas,
Sinto-me bem perto do verde…
E acima de tudo… Amo a minha liberdade!
Amiga Eliana me responda: Isso faz de mim um índio?
E se o sou, por que não faço nada?
Saudações do amigo.
on 21 de Março de 2007 @ 11:56
Já vi tantas atrocidades que temo hoje comentá-las para não despertar o ódio das futuras gerações contra determinadas atitudes que são levadas a termo em nome de Deus. Entretanto, se esquecemos nossa história estaremos condenados a repeti-la. Não podemos nos calar.
Em 2008 a Declaração Universal dos Direitos Humanos-DUDH, completará 60 anos. Estamos timidamente nos mobilizando aqui na nossa CDHAMA - Comissão de Direitos Humanos da Arquidiocese de Mariana-MG, para enfrentar o momento com coragem apesar do pouco ou quase nenhum apoio que temos. Após o falecimento de Dom Luciano, numa igreja hierárquica, as coisas ficam difíceis pois todos querem aguardar o novo bispo.
Nós, militantes dos DHs porém não podemos parar e aqui nos colocamos à disposição para colaborar nas denúncias e anúncios que nos enviarem.
Que a companheira assassinada seja mais um elemento intercessor diante do CRiador para nos ajudar a ter firmeza em nossa caminhada.
Sugiro a tod@s a leitura da obra Xamanismo de Mircéa Eliade. (Se precisarem tenho o resumo da obra e um verbete na Barsa). Certamente os que chamam de feiticeiros os que crêem e colocam seus dons a serviço, ficarão perplexos com a força que Deus dá a todas as criaturas e a algumas em especial.
Também não podemos apenas buscar culpados. Sei que Anchieta foi enviado para cá para morrer e se curou, apesar de ficar aleijado pelas suas fraquezas ósseas. Estudo sua vida. Na obra The Gestis Mend Saa ele conta friamente o que aconteceu às margens do Rio Cricaré e na Guanabara. Fico a perguntar o porquê de tal relato se a obra foi encomendada a ele e imposta por seu superior para louvar Mem de Sá. Talvez para que conhecêssemos a história e não perimitíssemos que se repetisse. E está se repetindo, vagarosamente nossos irmãos estão sendo eliminados e pouco fazemos para estancar essa onda de sangue que tem assolado o País.
Talvez devêssemos estar mais juntos, poder sentar na rede com o José Hernandez e outros mais, mas como…se nos juntamos é sempre para planejar novas ações, raramente para chorar ou rir juntos.
Um beijo carinhoso em cada um. Hoje colocarei uma rosa no anseio de perfumar o caminho da companheira assassinada mas também para que seu perfume exale e enterneça aqueles que perseguem os dons diferenciados por medo, inveja ou ganância. Parece-me aí ter duas vítimas, a que morreu e a que ficou com o peso de ter ceifado uma vida.
Paz e Bem.
Graça Andreatta
on 25 de Março de 2007 @ 17:52
Minha amiga Eliane, espero não ter sido mal interpretada.
Estou me referindo aos guaranis que vivem entre a montanha e o mar, as margens da sociedade, tendo que viver como índios e ao mesmo tempo vivendo em uma terra saloba, andando apé com crianças no colo por uma longa distancia enquanto seus filhos ficam vendo os turistas consumindo tudo que o dinheiro pode comprar, eles ficam o dia todo na beira da estrada enquanto minhões de veículos passam e mesmo tendo que parar na lombada a maioria nem olha do lado, enquanto eles expõe seus lindos artezanatos.
Esta nova geração de índios passam o final de semana na beira da estrada , vendo passar turistas o tempo todo, consomem alguma coisa comprada no bar ou padaria e voltam pra casa no final do dia cansados.
Não da pra viver só da roça que eles plantam.
Eles são heróis em conseguir criar seus filhos assistindo estes dois mundos.
Ser guarani é um orgulho.
As crianças aprendem primeiro a sua lingua, depois a nossa.
São pessoas muito educadas.
Eu ja fiquei horas com umas dez crianças guaranis e não vi uma briga.
Elas são crianças felizes..
Parabens as mãmaes..
Um grande abraço.
on 29 de Março de 2007 @ 17:46
Aqui em MS em diversas aldeias Guarani e Kaiowá os pastores evangélicos mais que os padres católicos tem imposto o terror e o medo aos seguidores da religião original, onde tudo que vem de Nhade Rú é demoníaco. diversas casas de reza Ocapussí foram queimadas por índios crentes.
on 9 de Abril de 2007 @ 18:58
Amiga Eliane,
Aproveito para reiterar minha admiração pelo seu trabalho e dizer que, pela sua relevância, estarei reproduzindo este seu texto na próxima atualização da Mito e Magia.
Abraços,
Jan Duarte
on 12 de Abril de 2007 @ 22:33
ancestralidade é origem
feitiçaria das raízes da alma
magia das sensações, dos genes
é herança, é história…
É feitiço sim, da Natureza, da Grande Criação
Aos olhos de quem marca cultura como algo negativo
ressucitemos então as bárbaries da Inquisição
que acendiam fogueiras nos seus tribunais maléficos e arcaicos
E vamos falar de flores
através da nossa Arte
beijos guerreiros
on 12 de Abril de 2007 @ 22:34
ancestralidade é origem
feitiçaria das raízes da alma
magia das sensações, dos genes
é herança, é história…
É feitiço sim, da Natureza, da Grande Criação
Aos olhos de quem marca cultura como algo negativo
ressucitemos então as bárbaries da Inquisição
que acendiam fogueiras nos seus tribunais maléficos e arcaicos
E vamos falar de flores
através da nossa Arte
beijos guerreiros
Desculpem: não sou anônimo, apenas esqueci de colocar a identificação
on 28 de Agosto de 2007 @ 18:43
h
on 24 de Outubro de 2007 @ 22:23
Carissima, fiquei encantada com o seu desabafo a penso como voce, mais infelizmente vivemos em uma sociedade preconceitosa é que passados mais de 500 anos vemos o indios como os portugueses viam.
Espero esta viva para ver essa situação mudar.
Um grande abraço cheio de paz.